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O dinheiro da CBF é de quem? Caso Samir expõe as contradições do futebol e do Brasil

Entidade que administra a Seleção Brasileira não tem donos, opera um monopólio reconhecido pela FIFA e movimenta centenas de milhões de reais; caso recente reacende debate sobre quem produz, quem controla e quem deveria se beneficiar da riqueza gerada pelo futebol

Quando surge um escândalo envolvendo a Confederação Brasileira de Futebol, uma justificativa costuma aparecer rapidamente para encerrar o debate: a CBF é uma entidade privada. A frase parece simples. Mas basta aprofundar a discussão para perceber que ela está longe de responder à pergunta principal. O caso envolvendo o presidente Samir Xaud, acusado de utilizar a estrutura da entidade em viagens que incluíam mulheres próximas ao dirigente, reacendeu uma discussão que vai muito além das despesas atribuídas ao mandatário. Afinal, se o dinheiro da instituição não é público, ele pertence a quem? A resposta revela uma das estruturas mais peculiares do esporte mundial.

Uma entidade sem donos

Diferentemente de uma empresa tradicional, a CBF não possui acionistas, sócios proprietários ou controladores. Tão pouco pertence ao Estado brasileiro. A entidade é uma associação civil de direito privado sem fins lucrativos. Seu patrimônio não pertence ao presidente da vez, nem às federações estaduais individualmente. Ele pertence à própria pessoa jurídica chamada Confederação Brasileira de Futebol.

Veja as fotos

Divulgação/CBF

Reprodução/X: @brasil

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FOTO: @rafaelribeirorio / CBF

CBF anuncia novo calendário na sede da entidadeFOTO: @rafaelribeirorio / CBF


É justamente aí que surge a primeira contradição. A instituição administra uma das marcas mais valiosas do país, movimenta cifras milionárias e controla a principal seleção do planeta em número de títulos mundiais, mas não possui um proprietário que possa ser apontado como dono. Os dirigentes passam. A instituição permanece.

O monopólio que não nasceu do mercado

No capitalismo tradicional, empresas disputam consumidores. Quem fracassa perde espaço e quem não gera resultado desaparece. A CBF não vive essa realidade. Seu poder não nasceu da concorrência, mas sim do reconhecimento institucional.

A Federação Internacional de Futebol reconhece apenas uma entidade nacional por país para representar oficialmente o futebol perante o sistema global. No caso do Brasil, essa credencial pertence à CBF.

Ela não é dona do futebol brasileiro. Mas é a única autorizada a representá-lo. Assim, pode organizar a Seleção Brasileira, além de representar o país nos congressos da FIFA. Ainda pode inscrever equipes e seleções em competições oficiais, e também negociar comercialmente os ativos vinculados à camisa mais famosa do futebol mundial. O monopólio está na legitimidade para administrá-lo.

O futebol existiria sem a CBF

A história ajuda a entender esse fenômeno. A entidade não foi criada pela FIFA. Ela é herdeira da antiga Confederação Brasileira de Desportos, fundada em 1914, numa época em que o futebol ainda estava longe de se transformar na potência econômica atual.

A CBF surgiu em 1979 para assumir exclusivamente a gestão do futebol nacional. Mas o futebol brasileiro já existia antes dela. Pelé não foi criado pela CBF. Garrincha não foi criado pela CBF. Zico, Romário, Ronaldo, Marta, Ronaldinho e tantos outros também não.

A paixão nacional que transformou a Seleção Brasileira em um ativo global foi construída por gerações de atletas, clubes e torcedores. A entidade administra esse patrimônio. Mas não foi ela quem o criou.

O lucro que não pode ser chamado de lucro

Outra aparente contradição envolve a condição de entidade sem fins lucrativos. Apesar da classificação jurídica, a CBF acumula receitas milionárias ano após ano. Patrocínios, direitos de transmissão, contratos comerciais e acordos internacionais fazem da entidade uma das instituições esportivas mais ricas da América Latina.

Isso não representa uma irregularidade. Uma associação sem fins lucrativos pode gerar superávits, ampliar patrimônio e aumentar receitas. A diferença é que esses recursos não podem ser distribuídos como dividendos a dirigentes ou membros da instituição.

Em tese, devem ser reinvestidos nas finalidades que justificam a existência da própria entidade. E é exatamente aí que o debate provocado pelo caso Samir Xaud ganha relevância. A questão deixa de ser apenas jurídica e passa a ser institucional.

O dinheiro é privado. Mas serve a quem?

Quando um empresário utiliza recursos de sua companhia, existe um proprietário identificável por trás daquele patrimônio. Na CBF, a lógica é diferente. O dirigente administra. Mas não possui. Controla. Mas não é dono.

A pergunta, portanto, não deveria ser apenas se o dinheiro é público ou privado. A questão mais importante é: qual a finalidade desse dinheiro?

Se a entidade existe para desenvolver, organizar e representar o futebol brasileiro, qualquer utilização de seus recursos inevitavelmente será confrontada com essa missão institucional. Por isso, o debate ultrapassa a esfera criminal e alcança a governança, a ética e a responsabilidade administrativa.

Quem sustenta essa máquina?

Existe uma última reflexão que ajuda a compreender por que crises na CBF costumam provocar reações tão intensas. A entidade controla uma riqueza gigantesca. Mas essa riqueza não nasce dentro de seus escritórios. Ela nasce nos gramados. Nas arquibancadas. Nas audiências. Nos clubes. Nas categorias de base. Nos atletas. Nos treinadores. Na paixão de milhões de torcedores que transformam o futebol em um produto cultural praticamente sem paralelo no país.

Mercadologicamente, a Seleção Brasileira é uma potência global. Socialmente, é um símbolo nacional. Economicamente, movimenta valores capazes de atravessar gerações. E tudo isso só existe porque o futebol foi construído coletivamente.

Por isso o argumento de que a CBF é apenas uma entidade privada não é suficiente para encerrar a discussão. A instituição não possui donos. Mas administra um patrimônio que, de certa forma, foi construído por todos aqueles que transformaram o futebol brasileiro no produto mais valioso do esporte nacional.

E é justamente essa contradição que faz com que cada novo escândalo provoque uma pergunta cada vez mais difícil de ignorar: se ninguém é dono da CBF, quem deveria ser o verdadeiro destinatário da riqueza que ela administra?

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