Políticos e empresários se reuniram na noite de ontem para discutir os rumos da economia e da política brasileira em um momento decisivo para o país. Promovido pela Associação Comercial da Bahia (ACB), em parceria com o Grupo A TARDE e a AtlasIntel, o jantar faz parte do projeto “Diálogos que Transformam” e reuniu cerca de 200 convidados no Bistrot Trapiche Adega, no Comércio.
O encontro teve como principal atração a palestra do cientista político e CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, que apresentou uma análise sobre a polarização política no Brasil, os custos desse fenômeno para a sociedade e a democracia, além das perspectivas para as eleições de 2026 no cenário nacional e na Bahia. O evento também teve caráter institucional: os recursos arrecadados com o jantar de adesão serão destinados às obras de recuperação do telhado da sede histórica da Associação Comercial da Bahia, também localizada no Comércio.
Entre os presentes estavam o senador Jaques Wagner (PT), o senador Angelo Coronel (Republicanos), o vice-governador Geraldo Júnior (MDB), o presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Carlos Henrique Passos, a vice-prefeita de Salvador, Ana Paula Matos (UB), o presidente da Câmara Municipal de Salvador, Carlos Muniz (PSDB), o ex-prefeito de Salvador Antonio Imbassahy, o secretário estadual de Relações Institucionais, Adolpho Loyola, além do ex-prefeito de Salvador e pré-candidato ao governo da Bahia, ACM Neto (UB), entre outras lideranças políticas e empresariais.
A presença de representantes de diferentes correntes políticas evidenciou o caráter plural do evento, que reuniu nomes tanto da base governista quanto da oposição em torno do debate sobre os desafios do país.
Ao abrir a programação, a presidente da ACB, Isabela Suarez, destacou que a iniciativa vai além da preservação física do patrimônio da entidade. “Hoje a visão desse jantar se dá por um motivo primoroso, que é a recuperação do teto, do forno, do telhado da Associação Comercial da Bahia. Um gesto de absoluto respeito com quem efetivamente contribui para o sustento do nosso país, o empresariado brasileiro. Mas não se trata apenas de restaurar a estrutura física da Associação Comercial da Bahia”, afirmou.
Segundo ela, o fortalecimento do associativismo é parte essencial da estratégia de desenvolvimento econômico. “É preciso que a gente entenda que o desenvolvimento econômico vai muito além dos muros das fábricas, das plantações do agro, das portas abertas do varejo, e tem no associativismo a sua verdadeira sustentação. Então as nossas pautas não vão de encontro, e sim ao encontro dos interesses do Brasil”, declarou.
Em seu discurso, Isabela também fez críticas à forma como determinadas pautas vêm sendo conduzidas no Congresso Nacional e citou como exemplo a proposta de mudança na escala de trabalho conhecida como PEC 6×1. “Como representante de uma instituição independente, eu não posso deixar de falar dos absurdos em que a classe empresarial recentemente tem sido envolvida, principalmente quando se trata da análise e da aprovação de pautas, como é o caso da PEC 6×1. O que nós assistimos foi uma absoluta irresponsabilidade do Congresso”.
Isabela ressaltou ainda o papel histórico da Associação Comercial da Bahia na interlocução com os diversos poderes da República. “Há 215 anos eu preciso dizer que a Associação Comercial da Bahia vem fazendo o papel dela. A gente vem constantemente conversando com as instituições, com todos os representantes dos poderes do pacto federativo, como bem prevê a nossa Constituição Federal, responsável por guardar e valorizar os valores da nossa democracia”, afirmou.
O arquiteto Marcelo Safadi, da Elysium Sociedade Cultural e um dos responsáveis pelo projeto de restauração da sede da Associação Comercial da Bahia, destacou a relevância histórica do imóvel e defendeu a mobilização da sociedade para sua preservação. Segundo ele, a entidade reúne um patrimônio singular. “Nós temos aqui talvez a Associação Comercial mais longeva do mundo. Este prédio acompanhou toda a história do comércio do Brasil, da América Latina e das Américas. Talvez seja um dos prédios mais importantes de Salvador”, afirmou.
Importância do diálogo
Já o presidente do Grupo A TARDE, João Mello Leitão, ressaltou a importância do diálogo entre lideranças políticas e empresariais. “Hoje o Grupo A TARDE reúne aqui lideranças que ajudam a construir o rumo da Bahia e do Brasil. Ao longo dos seus 113 anos de história, A TARDE sempre acreditou que o diálogo qualificado e a informação de qualidade são fundamentais para apoiar a tomada de decisão e a construção de visões de longo prazo”, afirmou.
Ele destacou que a empresa vive um novo momento de transformação e fortalecimento institucional. “Vivemos atualmente, no Grupo A TARDE, um novo ciclo marcado por importantes avanços na reorganização da companhia, pela construção das bases sólidas para o crescimento sustentável. Uma renovação que envolve gestão, governança, conteúdo, produtos e relacionamento com o mercado”, disse.
Ao iniciar sua apresentação, Andrei Roman agradeceu aos organizadores e associou sua participação à causa de preservação do patrimônio histórico da capital baiana. “É sempre muito especial estar na Bahia. Estou muito feliz de compartilhar este momento com vocês, ainda mais por uma causa tão nobre. O patrimônio desta cidade, do ponto de vista histórico e cultural, é algo que não apenas o Brasil, mas o mundo inteiro deveria preservar e conhecer”, afirmou.
Riscos da polarização
A partir daí, o cientista político mergulhou no tema central da noite: a polarização política e seus efeitos sobre a democracia, a economia e as relações sociais. Segundo ele, o fenômeno ultrapassou a esfera eleitoral e passou a influenciar decisões cotidianas.
“Se a gente fosse pensar o tema como uma cabeça de empresário, a nossa intuição seria bastante forte. Quantos empresários aqui presentes deixariam de ofertar seus bens e serviços para mais ou menos metade da população do estado da Bahia que se considera petista? Ou quantos deixariam de vender para mais ou menos um terço da população que hoje está migrando para uma identificação bolsonarista? Provavelmente poucos aqui gostariam de assumir esse custo da polarização”, observou.
Para Roman, a sociedade brasileira ainda não conseguiu desenvolver mecanismos para superar esse ambiente de confronto permanente. “A gente chegou a uma situação de falar sobre a polarização de maneira cotidiana. Na maioria das vezes quando abordamos o assunto, fazemos isso para lamentar a impossibilidade de trazer o outro para o nosso lado. Não damos aquele passo para buscar um consenso”, afirmou.
Durante a exposição, o CEO da AtlasIntel apresentou aquilo que definiu como os cinco pilares que sustentam a polarização política no Brasil. O primeiro deles é a transformação da política em uma identidade emocional. “As pessoas se engajam na política de uma forma visceral, com emoção e não com a cabeça, não com pragmatismo”, disse.
O segundo pilar é o crescimento do chamado voto negativo. “A gente não pensa mais no que busca construir. A gente pensa mais no que busca destruir”, afirmou. Roman argumentou que a rejeição passou a desempenhar um papel central na organização do sistema político brasileiro. “A rejeição hoje organiza o sistema político”, resumiu.
Outro aspecto destacado foi a força crescente dos símbolos políticos e da identidade de grupo. “Quando este símbolo é atacado, a psicologia de grupo faz com que as pessoas precisem se unir para defender o seu grupo e, portanto, o seu símbolo maior”, explicou.
Sociedade mais politizada
Um dos pontos que mais chamaram a atenção na palestra foi a avaliação de que os brasileiros nunca acompanharam tanto a política quanto agora. “Em uma pesquisa recente, 82% dos brasileiros dizem que acompanham a política muito de perto, quase todos os dias”, afirmou.
Segundo Roman, o aumento do interesse não significou necessariamente maior disposição para rever opiniões. “Quando a gente pergunta sobre o voto, mesmo antes do início oficial da campanha, 87% dos brasileiros dizem que o seu voto já está decidido”, destacou.
Para ele, a consequência é uma cristalização cada vez maior das posições políticas. “Estamos vivendo numa era de grande politização, onde todas as pessoas estão engajadas, têm uma opinião a respeito da política, mas essa opinião é tão consolidada que as opiniões simplesmente não mudam.”
Cenário eleitoral
Ao abordar as perspectivas eleitorais, Roman afirmou que o Brasil vive um momento de equilíbrio entre os principais campos políticos. Segundo dados apresentados por ele, tanto Lula quanto Jair Bolsonaro possuem aproximadamente 41% de eleitores que afirmam votar neles com certeza.
Ao mesmo tempo, a rejeição aos dois grupos permanece elevada. “Qual o percentual dos brasileiros que com certeza votaria no Jair Bolsonaro? 41%. Qual o percentual dos brasileiros que com certeza votaria no Lula? 41%. Qual o percentual que de jeito nenhum votaria em um desses dois líderes? 50%”, afirmou.
Na avaliação do cientista político, a eleição presidencial tende a ser definida menos pela aprovação e mais pela rejeição. “Diria que a eleição deste ano vai ser muito mais uma eleição sobre rejeição do que sobre popularidade de um líder específico.”
Ele também observou que a disposição para mudar de lado é extremamente reduzida. “Apenas 5% dos eleitores do Lula em 2022 não votariam mais nele. Apenas 5% dos eleitores do Jair Bolsonaro em 2022 não votariam no Flávio Bolsonaro”, afirmou.
Bahia no radar
Ao analisar o cenário baiano, Roman avaliou que há sinais de desgaste gradual da força eleitoral de Lula no Nordeste, mas ponderou que isso não significa automaticamente vantagem para a oposição.
“Existe uma lenta erosão da base de apoio do Lula no Nordeste. É algo que estamos observando em todos os estados, inclusive aqui”, afirmou. Segundo ele, fatores como segurança pública, mudanças na percepção sobre programas sociais e novos estilos de gestão ajudam a explicar esse movimento.
Ainda assim, Roman alertou que a própria polarização pode produzir efeitos inesperados. “Não estou convencido de que isso será determinante. A polarização faz com que tanto Lula quanto ACM Neto possam perder eleitores na margem. E isso poderá produzir efeitos surpreendentes”, concluiu.