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O que a perda de memória da minha mãe me ensinou sobre envelhecer

Esquecer. Verbete que habita o dicionário da autocomiseração. Apagar o registro, desbotar a memória até que tudo se dissolva e se consuma como fumaça, ou ácido. Despachar para o reino do desfazimento, mergulhar na névoa densa e obscura. Arriscar-se numa pescaria nas águas turvas e efervescentes do pretérito imperfeito. O esquecimento, devidamente mapeado, era, vez por outra, recheado de propósitos inconscientes. Separar a clara da gema daria menos trabalho que caminhar por esse fio da navalha. Assisto, absorta, minha mãe a se esquecer.

Conheço todos os passos que configuram as perdas cognitivas. Aqueles que a ciência de modo tão racional e metódico, catalogou. Nada obstante, o efeito em mim é outro. Nada pode apaziguar as angústias de perceber que diante do maior esforço ela capitula. Quero lhe oferecer meu melhor tempo. Ajudá-la a costurar sua colcha de retalhos, composta de chitas, sianinha e muitas histórias que ela tenta resgatar e tricotar com a paleta da sua imaginação. As histórias se modificam, ganham tônus e musculatura. Nesse intervalo descubro detalhes da minha ancestralidade. Pouco importa se são registros reais, simbólicos ou imaginários. Costuramos ponto a ponto a conexão entre meu amor pela cozinha e as prendas culinárias da minha avó Antônia.

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A magia do envelhecimento está em nos aproximar da nossa parentalidade. Cada dia descubro uma e outra coisa que me faz parecida com mainha. O gosto pela comilança, o humor quase cítrico. “Envelhecer é uma merda”, diz ela. Não sem esboçar uma gargalhada de consentimento. Também eu me esqueço. De apagar as luzes, de guardar as chaves, de colocar o lixo a tempo para a coleta do dia. Esqueço de responder as mensagens ou de enviá-las quando as digito. Esqueço de agendar a consulta, de escrever no diário os avanços e retrocessos literários. O fruto proibido da menopausa.

Pulei o compromisso comigo mesma. E, feito criança brincando de amarelinha, simulei me catapultar aos anos 40, quando acabou a guerra e mainha viajava de trem até São Roque e de lá pegar um navio para desembarcar em Salvador. Eu me tornei uma lista de tarefas, um bloco de notas no meio do calendário, que se apresenta interminável como a análise. Já não me ofereço à escuta. Sou toda ouvidos. E minha memória é feita de milhares de fragmentos. Passado e presente se movem nos trilhos do bondinho que hoje atende como metrô. Descobri que minha cidade segue inimiga do trabalhador. Gastam-se horas no ponto, esperando Godot. Um tempo morto.

Enquanto o ônibus não chega, reviso mentalmente a lista do mercado. Visualizo um cenário amistoso, onde os produtos estão dispostos nas gôndolas de acordo com as necessidades dos clientes, e não para responder aos apelos do marketing. Alongo-me entre as prateleiras, pratico algum contorcionismo e volto ao ponto zero. O ponto mais que frio.

O calor das entranhas não move moinhos, mas arrancam meus sorrisos mais honestos. Amo vísceras de carneiro e linguiça de bode. Sou carnívora confessa. Mas só como quem eu não conheço. Ainda outro dia, precisei esquecer as fronteiras da querência suína e de similares. Meu irmão me ofereceu um javaporco do seu sítio. Não o conheço, não sei o seu nome. Mas não me sinto confortável em ser diretamente responsável pelo seu abate. Tem gente que tem cheiro de morte. É o mister dos açougueiros. De alguns políticos também. Podia jurar que um senhor que também esperava o ônibus carregava um corpo na sua mochila. Pelo menos em parte. Parte de mim promete, mas não esquece.



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