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quando a gente não consegue relaxar nem na hora do prazer

Esses dias, cheguei à triste conclusão de que nunca escrevi um ensaio e, pior, de que não sei se sou capaz de escrever um. Ensaios, dizem os universitários, são textos intranquilos. Até aí tudo bem, se fosse só isso, eu teria certeza de minha possibilidade de sucesso, afinal, a tranquilidade é algo que me escapa. Além de intranquilo, porém, esse tipo de texto, bastante querido da academia, permite, ao mesmo tempo que demonstra, a progressão do pensamento – ou seja, o argumento não está posto de antemão, como em um artigo em que apresento uma introdução sobre o tema, o seu desenvolvimento e algumas considerações finais –, mas será construído através do próprio ato de escrita, em um processo de fruição, de gozo!

Mas comigo funciona diferente. Quando eu sento para escrever, tenho um projeto, não apenas uma ideia a explorar ou aprofundar. Uma vez estabelecido o objeto de análise, começo, via de regra, a ruminar sobre o próprio texto e até escrevo alguma coisa, mas sempre à procura de uma forma que vá me servir: se vou escrever respeitando uma linha de tempo, se vou colocar as autoras para conversar ou se é melhor desenvolver o argumento ao redor de uma determinada citação, que me leva a diversos tópicos relacionados a meu estudo. E vai piorando, vá vendo. Uma vez começada a escrita de fato, leio e releio minhas frases e parágrafos à exaustão e se algo não estiver resolvido, posso até passar adiante, mas vou deixar tudo destacado de amarelo marca texto, para deixar claro que alí tem um problema a ser resolvido – nada escapará a meu próprio crivo, essa é minha grande ilusão.

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Não bastasse a obsessão pela releitura, conto a quantidade de certos termos recorrentes (o dicionário de sinônimos está sempre aberto, por sinal), a quantidade de pronomes (nesta crônica, coloquei 9 pronomes pessoais do caso reto da primeira pessoa do singular, por exemplo), de parágrafos e de linhas por parágrafo, porque se houver discrepância, tenha certeza de que vou mudar o texto para deixá-lo equilibrado. Mas de onde vem essa necessidade de controle da escrita? Agora mesmo, vejo que meu parágrafo anterior está muito maior que este aqui e algo vai ter que mudar. Ou não, vamos seguir. Como assim eu não sou capaz de fruir e gozar no texto? Essa é a pergunta que vem ocupando minha mente todos esses dias. Eu não sou assim na vida, no geral é a vida que me leva, vida leva eu, por que justo no texto viro uma obsessiva?

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Pasma, começo a pensar que é justamente no gozo que mora meu problema, mas naquele real mesmo, que tenho que obter durante o sexo, pois se na vida eu não sou controladora, na cama isso muda de forma drástica, quem compartilha dela comigo sabe muito bem. Não me toque assim e não faça assado, preste atenção aos meus sinais, porque eu não sou de explicar muito, não faça nada rápido, mas não demore demais e, sobretudo, me faça gozar e gozar direito e, de preferência, mais de uma vez, porque eu também conto a quantidade de orgasmos – e ai de você se eu ficar insatisfeita! (Este parágrafo sim vai ficar menor que os outros, não sem sofrimento, mas é parte do exercício de desapego).

Está claro, portanto, que comecei esta crônica com um problema e agora me encontro com pelo menos dois: tenho que aprender a fazer um ensaio ou preciso reaprender a fazer sexo? Preciso resolver um para resolver o outro e, nesse caso, em que ordem? Para que resolvi que precisava aprender a escrever um ensaio? A escrita não é mesmo para os fracos, a pessoa acha que vai encontrar respostas e sai com uma lista de novas perguntas.

*Escritora



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