Doze de julho de 1998. O Brasil foi goleado pela França, por 3×0, na final da Copa do Mundo, adiando o sonho do pentacampeonato — que viria em 2022. A comoção fez com que caísse por terra um dos principais ditados populares do país: “política e futebol não se misturam”.
Pouco depois de uma das mais dolorosas derrotas em mundiais, a Câmara dos Deputados instaurou a chamada CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da CBF/Nike, com o objetivo de investigar as relações entre a entidade que comanda o futebol brasileiro e a empresa norte-americana de material esportivo.
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O começo de tudo
O primeiro contrato entre a CBF e a Nike foi firmado em 1995, após o tetra conquistado um ano antes, nos Estados Unidos, quando a Seleção Brasileira tinha como fornecedora de material esportivo a inglesa Umbro — comprada pela Nike em 2007.
CPI da Nike/CBF teve polêmicas, mas não teve relatório final votado | Foto: Reprodução
Conforme informado na ocasião, o contrato teria validade até o ano de 2005, sendo 40 milhões de dólares por ano. Do montante, 16 milhões de dólares seriam direcionados para a CBF, 8 milhões de dólares para indenização à Umbro pelo rompimento do contrato e o restante para uniformes, viagens, marketing esportivo.
Ricardo Teixeira
Uma figura central nessa relação é o ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Eleito em 1989, permaneceu à frente da entidade até 2007, após acumular diversas polêmicas na sua gestão — o mandato dele deveria durar até 2015.
No entanto, à época, as suspeitas apontavam que o mandatário da entidade teria assinado sozinho o contrato, enquanto quatro empresários assinaram pela Nike — isso teria feito a CBF ter prejuízos anuais após a assinatura do contrato.

O ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira | Foto: José Cruz/Agência Brasil
Doações
Apesar deste cenário, a CPI apurou aplicações da Confederação em ouro no exterior, além de mais de R$ 650 mil doados para candidatos a deputados e senadores, entre eles o ex-presidente do Vasco da Gama e ex-deputado federal, Eurico Miranda, falecido em 2019.
Além disso, o deputado federal Silvio Torres, relator daquela CPI, afirmou que a CBF havia acatado cláusulas do contrato, entre as quais a Nike teria a permissão de convocar até oito jogadores e decidir quais amistosos a seleção iria realizar.

Mario Zagallo durante depoimento na CPI da CBF/Nike, na Câmara dos Deputados | Foto: Eraldo Peres/AP
Influência
Os deputados ainda acreditavam que a influência da Nike sobre a CBF ia para além da parte administrativa e fornecimento de material, ingressando nas quatro linhas. Um caso emblemático é o atacante Ronaldo “Fenômeno”.
Antes daquela final da Copa do Mundo de 1998, um dos principais jogadores daquela equipe sofreu uma convulsão e esteve fora da lista inicial de titulares para o duelo contra a França. Porém, momentos após o fato, uma nova lista foi divulgada com a presença do atleta.
Entre os parlamentares da época, houve quem dissesse que a escalação de Ronaldo só ocorreu devido a uma imposição da Nike, o que não ficou comprovado.
Jogadores convocados
O colegiado, além da cúpula da CBF — a exemplo do ex-presidente Ricardo Teixeira —, colocou na mira jogadores e ex-jogadores para depor. Além do próprio Ronaldo, também depôs o ex-atacante Careca, titular no ataque do Brasil nas Copas do Mundo de 1986 e 1990, e o técnico da Seleção em 1998, Mário Jorge Lobo Zagallo.

CARECA1 BSB 07/12/00 -ESPORTES – ANTONIO OLIVIERA(CARECA) EX JOGADOR, DURANTE ENTREVISTA APOS REUNIAO DA CPI DA NIKE, NO CONGRESSO. FOTO JOEDSON ALVES/AE | Foto: Jodeson Alves/AE
Resultados
Mesmo com as 237 horas e 16 minutos de reuniões na Câmara dos Deputados, além dos 125 depoentes, a CPI acabou em 2001 “terminando em pizza”, sem o relatório final ter sido votado.
O documento, de 800 páginas, pediu, entre outros, o indiciamento de Teixeira e outros 33 nomes, entre dirigentes, empresários e outros envolvidos.
À época, Torres afirmou que o relatório não foi levado à votação por medo de que os oito meses de trabalho fossem perdidos.
Como está a relação entre CBF e Nike
Mesmo após as polêmicas entre a entidade e a fornecedora de material esportivo, em dezembro de 2024 houve uma nova renovação do contrato, até o ano de 2038, tornando-se o maior acordo de material esportivo entre seleções no mundo.
A nova parceria, que entra em vigor após o fim do contrato atual em 2026, prevê um valor fixo de 100 milhões de dólares por ano (R$ 608 milhões na cotação de dez/2024), com royalties que podem elevar o ganho total para até R$ 1 bilhão por ano.
O contrato atual, que vai até o fim deste ano, pagava cerca de 35 milhões de dólares/ano — R$ 213 milhões.