O silêncio provocado por uma tela de smartphone nas mãos de uma criança pode esconder um impacto profundo e duradouro no desenvolvimento cerebral. Na Bahia, a imersão no universo digital começa de forma preocupante: 23,7% das crianças iniciaram o uso regular de aparelhos antes dos 6 anos de idade.
O dado integra uma pesquisa da AtlasIntel, realizada em parceria com o Jornal A TARDE, divulgada nesta segunda-feira, 11, que traça um raio-x sobre como a tecnologia molda a infância no estado.
O cenário de exposição precoce se estende para a faixa dos 6 aos 8 anos, que concentra 32,4% dos novos usuários, totalizando mais de 56% das crianças baianas conectadas antes mesmo da conclusão do primeiro ciclo de alfabetização.
O levantamento revela ainda que a posse do aparelho próprio já é realidade para 55,7% dos menores, atingindo picos de 73,8% entre adolescentes de 14 a 17 anos.
O ataque silencioso ao neurodesenvolvimento
A psicóloga Laíse Brito (CRP 03/19361) destaca que o uso prematuro das telas representa uma violação biológica. Segundo a especialista, as experiências vividas nos primeiros anos de vida repercutem por toda a existência, uma vez que até os 2 anos o cérebro atinge cerca de 75% de seu desenvolvimento.
“O sistema nervoso central de uma criança precisa aprender regulação emocional com um outro sistema nervoso, geralmente um adulto que pode transmitir esse apoio. Uma tela não tem essa competência e afetividade. O uso precoce, além de deixar o cérebro preguiçoso, faz com que muitas partes possam se atrofiar, sem desenvolver ao máximo a sua capacidade de processamento e assimilação”, afirma.
O estudo comprova essa visão ao listar as mudanças de comportamento percebidas pelos pais após o início do uso: irritabilidade (46,2%), ansiedade (44,5%) e alterações no sono (40,3%) lideram a lista de danos observados.
A psicóloga explica que o excesso de estímulo gera gratificações rápidas no sistema de recompensa, gerando um entorpecimento de dopamina similar ao vício em entorpecentes.
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O abismo social e o “alívio” das telas
A pesquisa desmistifica a ideia de que a tecnologia é um problema restrito a certas classes sociais, mas aponta comportamentos distintos por faixa de renda.
A exposição mais precoce ocorre no topo da pirâmide: na faixa com renda acima de R$ 10 mil, 47,7% das crianças começaram a usar o celular antes dos 6 anos. Em contrapartida, nas famílias com renda entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, a maioria (53,4%) só permitiu o uso regular a partir dos 12 anos.
Mais da metade das crianças baianas usa celular antes dos 8 anos | Foto: Pexels/Divulgação
Apesar de a classe alta expor os filhos mais cedo, são as famílias de baixa renda (até R$ 2 mil) que demonstram maior percepção de risco e rigor: 90,5% afirmam impor limites com regras claras e representam a maior fatia na busca por orientação profissional (20,8%).
Para a psicóloga, a facilidade de acesso nas classes mais altas pode mascarar os danos. “Ter recursos financeiros nem sempre é um preditor de saúde. As telas, por vezes, são um alívio do quanto uma criança demanda de atenção, servindo de fuga para cuidadores exaustos. Atividades como essas podem ter caráter de solução imediata, mas com consequências longínquas”, pontua.
Descompasso: informação vs. preocupação
Os pais baianos demonstram um alto nível de apreensão: 97,3% acreditam que o uso excessivo causa prejuízos. Entretanto, há um descompasso entre o que sabem e o que temem:
- Dependência/vício: 67% se sentem informados e 65% estão muito preocupados.
- Prejuízos cognitivos: Apenas 46% se sentem informados, mas 56% estão muito preocupados.
- Saúde mental: 48% se sentem informados, enquanto 55% temem ansiedade e depressão.
Gênero e mediação: mães como guardiãs do digital
A pesquisa AtlasIntel também revela que a gestão da vida digital dos filhos recai majoritariamente sobre as mulheres. Elas demonstram uma percepção muito mais crítica e vigilante: 46% das mães acreditam que o celular traz majoritariamente prejuízos, visão compartilhada por apenas 30,4% dos homens.
Essa diferença de percepção se traduz em atitudes práticas de monitoramento:
- Conversa e diálogo: 77,2% das mulheres afirmam conversar “Sempre” com os filhos sobre o uso, contra apenas 52% dos homens.
- Aplicação de regras: 88,3% das mulheres impõem limites claros, enquanto entre os homens o índice cai para 68,9%.
- Negligência de limites: A taxa de pais que admitem não impor nenhuma regra é quatro vezes maior entre homens (12,6%) do que entre mulheres (3%).
Fantasia do mundo digital vs. sofrimento psíquico real
Para crianças de até 5 anos, a atividade principal no celular são os jogos (61,1%). Já para adolescentes (14 a 17 anos), há um deslocamento para o uso social e educacional: 76% usam para estudo/escola e 50,6% utilizam para conversas (WhatsApp, Discord, etc.).
Para Laíse, essa imersão precoce em ambientes lúdicos virtuais, onde a frustração é minimizada por recompensas imediatas, cria uma desconexão perigosa com a realidade.
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A profissional alerta que o cérebro humano só atinge a maturação completa por volta dos 24 anos, o que deixa crianças e adolescentes vulneráveis a conteúdos que não conseguem processar.
“O mundo é digital, mas o sofrimento psíquico passa a ser real. Pela falta de maturação do cérebro, os jovens têm baixa capacidade de discriminação de situações reais do dia a dia e o ambiente virtual. Se no ambiente virtual é permitido eliminar o adversário, há uma propensão a reproduzir isso no cotidiano com figuras que representem ameaça, seja uma professora, os pais ou até um animal”, adverte a psicóloga.
AtlasIntel/A TARDE
O levantamento AtlasIntel em parceria com o jornal A TARDE entrevistou 1.042 pais e responsáveis na Bahia, por meio de recrutamento digital, entre os dias 26 e 30 de abril de 2026. A margem de erro é de ±3 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.