A prefeita de Vitória da Conquista, Sheila Lemos (União Brasil), é acusada de usar a estrutura da gestão municipal, popularmente conhecida como ‘máquina’, para promover a candidatura de seu marido, Wagner Alves, a deputado estadual nas eleições deste ano.
As denúncias, que chegaram de forma anônima ao portal A TARDE, apontam que Sheila, hoje no seu segundo mandato à frente da Prefeitura, tem colocado seu companheiro em posição de destaque desde o início de 2026, em clara estratégia de promoção da imagem de Wagner.
O A TARDE Destaque desta semana traz um dossiê da estratégia ilegal adotada por Sheila Lemos nos últimos meses, assim como detalhes da crise que acomete a cidade, a terceira maior da Bahia em população.
Quem é Sheila Lemos?
A prefeita de Vitória da Conquista teve uma meteórica ascensão até chegar ao executivo municipal. Filha de Irma Lemos, ex-vice-prefeita da cidade, a política foi escolhida para o mesmo cargo na chapa de Herzem Gusmão (MDB).
Herzem foi candidato à reeleição na prefeitura de Conquista em 2020, durante a pandemia da Covid-19, saindo vitorioso nas urnas, após uma dura batalha contra o ex-prefeito Zé Raimundo (PT).
O gestor, porém, não assumiu o segundo mandato por ter sido acometido pela Covid. Com sua morte, no início de 2021, Sheila foi diplomada prefeita da terceira maior cidade da Bahia.Em 2024, Sheila conseguiu a reeleição ao derrotar Waldenor Pereira (PT) ainda no primeiro turno, mas começou o seu novo mandato sob desconfiança até mesmo de seus aliados.
Sheila Lemos usa máquina pública a favor do marido
Opositores de Sheila Lemos afirmam que a prefeita tem usado de todos os métodos para eleger seu marido, expandindo a presença da sua família nas estruturas de poder.
A prática é comum entre gestores, que colocam seus cônjuges em cargos legislativos na tentativa de manter seus familiares dentro do cenário político. Sheila Lemos, no entanto, beneficiou seu esposo ao garantir sua presença em eventos públicos, atividades da Prefeitura e em festas populares.
A própria Prefeitura, por exemplo, foi mobilizada desde o primeiro semestre, antes mesmo do prazo eleitoral, para um trabalho de promoção da então pré-candidatura de Wagner.
Membro da bancada de oposição na Câmara Municipal de Vitória da Conquista, o vereador Alexandre Xandó (PT) explicou ao portal A TARDE como tem funcionado a ‘operação’ para garantir a eleição de Wagner no dia 4 de outubro.
“Isso é algo escancarado. Vimos no São João, durante a festa de São João, o marido da prefeita estava em cima do palco a todo instante. Ao longo do primeiro semestre, tudo que havia de inauguração, atividades, o marido da prefeita sempre esteve presente, como se fizesse parte da gestão. Houve esse uso da máquina pública”, destacou o vereador do PT.
Campanha antecipada para favorecer marido
Em um dos episódios que mostra o favorecimento e campanha antecipada para Wagner, servidores municipais dos chamados ‘cargos de confiança’, lotados por indicações políticas, exibiam em publicações nas suas redes sociais plaquinhas com o slogan “Tô com Wagner”.
O portal A TARDE, em matéria veiculada na segunda semana de agosto, mostrou a tática de Wagner para ‘burlar’ a legislação eleitoral, colocando seu número de urna como nome de usuário antes do dia 16 do mesmo mês, quando foi autorizada a divulgação e o início da campanha.

“Todos os coordenadores de campanha, desde o primeiro semestre, todos os que tinham todos os cargos de confiança, eles já tinham ali nas suas redes sociais, no WhatsApp também, a sua plaquinha do ‘Tô com Wagner’ […] Foi se aproveitando desses espaços, tanto que isso foi investigado pelo Ministério Público, mas é como se não tivesse acontecido nada”, completou Alexandre Xandó.
Sheila Lemos usa a Secretaria de Saúde para favorecer marido
Outra acusação, feita pela vereadora Lara Fernandes (Republicanos), candidata a deputada estadual, é referente ao uso da Secretaria Municipal de Saúde para a realização de ações que ajudem a candidatura de Wagner.
Realização de cirurgias, atendimentos médicos e exames, em troca de votos para Wagner Alves, se tornaram práticas comuns nos hospitais da cidade.
A denúncia da parlamentar, hoje casada com o vice-prefeito do município, Aloísio Alan (Republicanos), deve ser tornar alvo de um procedimento investigativo por parte do Ministério Público da Bahia (MP-BA).
Sheila Lemos não se manifestou publicamente sobre as acusações, ao contrário do seu marido, que se defendeu em um post nas redes sociais, confrontando a vereadora.
Sheila rompe com vice para bancar candidatura do marido
Em um movimento arriscado, Sheila Lemos comprou briga com alguns de seus aliados para emplacar a candidatura de Wagner. O rompimento mais notório foi com seu vice, Aloísio Alan, que também lançou sua esposa para disputar uma cadeira na Alba.
Antes disso, a prefeita de Vitória da Conquista já havia comprado briga, em menor proporção, com o deputado estadual Tiago Correia (PSDB), de quem era próxima, ficando isolada e tomando decisões impopulares.
Prefeita persegue antigos aliados
Além da briga com seu vice, com quem atualmente está rompida, Sheila Lemos tem sido acusada de práticas que colocam em xeque a posição que ocupa, conforme os relatos obtidos pelo portal A TARDE.
Entre os alvos recentes, está o vereador Diogo Azevedo, do PSDB, que vive um impasse judicial, após a gestora orquestrar uma tentativa de cassar seu mandato por infidelidade partidária.
Diogo foi eleito em 2024 pelo União Brasil, partido de Sheila, como o candidato mais votado do município, mas deixou a sigla para integrar as fileiras tucanas. A mudança, no entanto, gerou imediata reação na base de Sheila.
O vereador chegou a ter seu mandato cassado, mas uma decisão recente do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) lhe devolveu o exercício do cargo legislativo.
Procurado pelo portal A TARDE, o parlamentar confirmou a versão apresentada por políticos conquistenses do modus operandi da prefeita.
Ela me perseguiu e me persegue […] Hoje estou respondendo a um processo de cassação articulado por ela Diogo Azevedo
Como retaliação ao antigo aliado, Sheila exonerou pessoas ligadas ao vereador de funções dentro da estrutura municipal, encerrou contratos de funcionários temporários sem justificativa, todos próximos ao parlamentar, e passou a rejeitar todas as solicitações de Diogo Azevedo.
Caos em Vitória da Conquista implode gestão Sheila Lemos
Além das suspeitas do uso da máquina para emplacar a candidatura de Wagner Alves, Sheila Lemos enfrenta um turbilhão de denúncias, acumulando polêmicas e alimentando a crise do seu mandato.
Em uma decisão recente, a prefeita recorreu à Justiça para tentar suspender uma liminar que obrigava o município a pagar uma pensão provisória a três crianças portadoras do Transtorno do Espectro Autista (TEA), que perderam a mãe em março deste ano.
O caso foi apenas mais um dos episódios envolvendo a administração atual, que tem sido alvo de críticas até mesmo por pessoas mais próximas, que apontam, sob anonimato, uma série de problemas que comprometem o futuro do grupo político na cidade.

Um dos pontos criticados é a demora de Sheila na troca de alguns de seus secretários, que se tornaram ‘intocáveis’ dentro da Prefeitura. O acesso a esses gestores, segundo vereadores consultados, é difícil e com poucas respostas efetivas. A baixa manutenção de serviços essenciais para a população também é alvo de críticas, principalmente dos conquistenses.
Prefeitura ignora Minha Casa, Minha Vida e atrasa entrega
O A TARDE Destaque obteve acesso aos dados referentes ao Minha Casa, Minha Vida do município, hoje com oito condomínios residenciais em construção.
Todos os conjuntos habitacionais estão com mais de 60% de andamento de suas obras. A Prefeitura, no entanto, cadastrou famílias que devem ser contempladas em apenas um desses condomínios.
O atraso no envio dos documentos necessários, por parte da gestão Sheila Lemos, prejudicará o calendário de entrega dos apartamentos.
Integrantes da oposição a Sheila acreditam que a prefeita ‘segurou’ tais documentos como estratégia política para prejudicar nomes ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Sheila é apoiadora declarada do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a quem a chegou a receber no município nos últimos anos.
Saúde vira o principal problema de Vitória da Conquista
A administração da saúde se tornou a grande ‘pedra no sapato’ da prefeita Sheila Lemos, em meio ao cenário marcado por uma profunda crise política.
Entre as denúncias apuradas pelo A TARDE Destaque, está o encerramento dos atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS) no Hospital Unimec, unidade privada que atuava na assistência dos pacientes da cidade.

A demora de pouco mais de uma década na contratação de agentes de endemias é outro fator alvo de críticas por parte dos políticos locais e de parte da população, que também deu depoimentos ao A TARDE Destaque.
Outra denúncia que chegou ao A TARDE Destaque é referente aos serviços que não estão mais sendo ofertados nos postos de saúde da cidade. Alguns pacientes na fila chegam a esperar até quatro anos por um atendimento ou exame.
“Hoje o principal problema da gestão municipal é a saúde. A saúde está um caos faz um bom tempo. Uma série de serviços ofertados nos postos de saúde deixaram de ser oferecidos. As pessoas reclamam de exames que estão por três ou quatro anos nos postos de saúde”, destacou uma das fontes em conversa sob anonimato com a reportagem do A TARDE Destaque.
Sheila Lemos silencia sobre problemas em Conquista
Procurada pelo A TARDE Destaque em seu contato pessoal, a prefeita Sheila Lemos não respondeu aos nossos questionamentos até a publicação desta matéria. O espaço permanece aberto para que a gestora responda todas as denúncias apontadas.