“Ganhando no grito”: a crônica sobre o apocalipse sonoro no nosso cotidiano –
O porteiro do meu prédio tem uma solução em mente para o barulho dos bares da vizinhança, que não deixam ninguém dormir noite adentro.
— Aqui precisava ter um morador que fosse um policial problemático. Bastava um, e essa rua ganhava jeito.
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A síndica já avisou que alguns apartamentos colocados à venda não encontram compradores por causa da zoeira, mas ela não sabe o que fazer, evita acionar as autoridades. À falta de um morador problemático, fico pensando em alguma solução pela via do diálogo. Dois andares abaixo de mim e mais exposta aos decibéis dos bares, uma moradora resolveu ela própria intensificar essa via, e dialogou pelo 190. A polícia veio a altas horas saber quem tinha razão.
Não sei o perfil dos policiais, nem o trato que tiveram com os estabelecimentos, mas os botecos correram para coibir a sua pior fonte de ruído: clientes que traziam caixas de som para ligar nas mesas na calçada, concentrando em si o espetáculo. Essa praga diminuiu bastante, e atualmente o que os bares mais ecoam é o burburinho, as vozes roucas dos bêbados ou os gritos nos dias de jogos de futebol, que já não são poucos, os jogos e os gritos.
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Sei que há casos muito piores porque tenho andado por Salvador nos últimos dias, procurando apartamento para um familiar comprar, e vejo como o silêncio e o sossego são mercadorias escassas nessa cidade circense. Nas minhas buscas, olho se o imóvel é voltado para o nascente, se o acesso exige muitas escadas ou se tem garagem. Pergunto às pessoas sobre transporte e segurança locais, mas também questiono se no entorno há algum churrasquinho em funcionamento. Ora, todos sabemos como um novo negócio tende a fazer barulho para expandir a sua clientela.
Noto que, quanto maior o silêncio e a paz numa rua, mais cara é a moradia e vice-versa. Condomínios com regras claras e rígidas neste quesito são oásis valorizados. Paz para estudar, para o mero descanso e para escolher o que se quer ouvir é artigo de luxo. Não à toa escutei dia desses, de um pretenso pregador religioso que colocava um som alto num ônibus coletivo:
— Quem não estiver gostando, que vá andar de Uber.
Como se pode notar, a gênese da violência vai muito além do uso de armas de fogo, está na disputa e apropriação do meio ambiente. E a situação mais precária na cidade é mesmo a do transporte público, seus pontos de espera e seus veículos, e as praças de bairros pobres, onde o barulho é normalizado e se torna mais uma forma de agressão social.
Ainda sobre os bares aqui da vizinhança, no maior deles a clientela deixa a rua repleta de lixo para os garis limparem no começo do dia. No entanto, pela manhã alguns funcionários do boteco também chegam para limpar o estabelecimento internamente, e capricham na Q-Boa espiritual. Ligam em alto volume uma aparelhagem que espalha o som de um violino irritante, com uma cantora berrando aos céus e advertindo contra o pecado e o inferno. Nessa hora, quem dormiu, dormiu.
Lembro que os nossos avós esperavam o juízo final, mas é cada vez mais certo que caminhamos para a falta-de-juízo final. E o apocalipse será composto de bares, de paredões e de loucos alardeando suas verdades e gostos individuais.
Olha que ainda nem falei das guerras, que são a maneira de os ricos soltarem os seus próprios urros internacionais com potências de mil megatons.
Não creio, sinceramente, que um policial problemático (“Bastava um!”) resolva os delírios de uma raça que prefere o arranca-rabo.
*Franklin Carvalho é autor do romance Tesserato – A Tempestade a Caminho (Ed. Noir)