Passeio revela os segredos da Ladeira da Misericórdia após uma década de interdição –
A cancela no início da Ladeira da Misericórdia, entre o Palácio Thomé de Souza e o Museu da Misericórdia, impede o tráfego de pessoas e veículos por uma das ligações entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa. A via está interditada há mais de uma década, por riscos de desabamentos, mas deve ser reaberta no ano que vem, quando se comemoram 40 anos da construção do conjunto arquitetônico que abrigou o restaurante Coaty e, posteriormente, o Zanzibar.
Mas uma vez por mês, com a autorização da Prefeitura do Salvador, acontece uma visita guiada em que o historiador Dilton de Almeida explica aos convidados a importância histórica da ladeira e o legado da arquiteta Lina Bo Bardi, uma italiana que se radicou em Salvador. Morta em 1992, ela deixou como legado na capital baiana a engenhosa escadaria de madeira do Museu de Arte Moderna, a Casa do Benin, o Teatro Gregório de Mattos e o conjunto arquitetônico construído em parceria João Filgueiras, o Lelé.
Atualmente, o imóvel está sendo requalificado pela prefeitura e servirá como a segunda unidade soteropolitana do Pivô, uma associação cultural sem fins lucrativos criada em 2011 em São Paulo e que, há três anos, está instalada também no Boulevard Suíço, em um casarão de 1930 que foi a residência do pintor Prisciliano Silva e que, no final dos anos 60, foi um local de encontro dos integrantes da Tropicália.
Na prática, o Circuito Lina é uma caminhada da Praça Municipal, passando pela Rua Chile, a primeira via pavimentada do Brasil, até a Ladeira da Misericórdia, que antes da construção da Ladeira da Montanha era uma importante conexão entre o Porto de Salvador, no Comércio, e a Cidade Alta.
“Essas caminhadas acontecem mesmo nesse período de readequação da Ladeira da Misericórdia e retomam simbolicamente uma iniciativa de anos atrás da Fundação Gregório de Mattos”, afirma a diretora executiva do Pivô Salvador, Carolina de Sá.
Este mês, aconteve a terceira caminhada. Na segunda edição, que ocorreu em abril, estiveram presentes Marcelo Teles e Nilma Santos, coordenadores do Centro Cultural Que Ladeira é Essa?, da Ladeira da Preguiça e Seu Edmilson, um artesão que trabalha na Ladeira da Conceição.
“A gente quer entender toda a contextualização das pessoas que residem, que ativam, que pensam as ladeiras de uma forma muito visceral. E também os projetos de vida, políticos, culturais, arquitetônicos”, afirma a diretora.
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Lugar acolhedor
Nesse começo, as pessoas guiadas estão sendo basicamente professores, pesquisadores, artistas e pessoas da comunidade. Mas qualquer pessoa interessada pode se inscrever através do site da associação. “Ainda é um número reduzido de pessoas, pensando na estrutura do Coaty. Mas é um lugar acolhedor e ali dentro a gente tem essa dinâmica de ouvir as pessoas”, afirma Carolina.
O Pivô tem interesse, por exemplo, em saber o que motivou as pessoas a participarem das visitas guiadas. “Tem sido uma troca muito frutífera, um lugar de ampliação do pensamento crítico, das possibilidades”, declara a diretora.
Carolina destaca que a Pivô enxerga a Ladeira da Misericórdia e o conjunto arquitetônico criado por Lina e Lelé como parte do Centro Histórico. “A gente anseia essa retomada da ladeira por completo. Essa iniciativa do Pivô é para que, em parceria com a prefeitura, toda a ladeira seja retomada”, adiz ela, que pretende estabelecer o Pivô Coaty como mais um lugar de experimentação artística e pesquisa. “Um lugar de encontro e de reflexão”, define Carolina.
Memória

| Foto: Manuel Sá | Divulgação
O responsável pela contextualização histórica da ladeira e por situar a passagem de Lina Bo Bardi pela Bahia é o professor de história da Ufba Dilton de Almeida. “A gente tem feito esse esforço de contar um pouquinho das passagens de Lina por Salvador, sobretudo dos anos 80, e recuperar a memória desse projeto de recuperação da cidade”, declara o professor, relembrando o período em que se começava a pensar na revitalização do Centro Histórico de Salvador. A reforma do Pelourinho/Maciel e do Santo Antonio Além do Carmo foi adiante. A Ladeira da Misericórdia ficou para trás.
O professor classifica o projeto de requalificação de Lina como “singular” e destaca que o seu modelo atrelava equipamentos culturais à produção em massa de educação social. “Tem sido interessante pensar essas caminhadas mostrando um pouco dessa memória que as pessoas muitas vezes esqueceram”, pondera o professor, para quem o projeto de Lina ficou inacabado.
“Eu falo um pouco dessas possibilidades sobre o que a cidade poderia ter sido e não foi”, argumenta o professor. Ele destaca o fato de que, entre todas as ligações entre a Cidade Baixa e a Cidade Alta, a Ladeira da Misericórdia tem a peculiaridade de ter sido cortada com a construção, em 1885, da Ladeira da Montanha, uma via em linha reta que deixou a velha e sinuosa ladeira obsoleta.
“Ao longo do tempo, ela foi se isolando ao ponto de hoje estar totalmente fechada”, sinaliza o professor. O historiador aponta, por exemplo, que a ladeira não se tornou um abrigo de ofícios da população negra liberta da escravização, como ocorreu com os artesãos dos arcos da Ladeira da Conceição, que ao longo das décadas atraiu clientes de outros bairros. A próxima visita guiada acontece no dia 29 de maio. As vagas são limitadas. Para se inscrever, acesse www.pivo.org.br.