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fronteira agrícola quer crescer sem destruir o Cerrado

A pressão para conciliar produção e preservação nunca foi tão evidente no Matopiba — região formada por áreas majoritariamente de Cerrado no Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Consolidada como uma das principais fronteiras agrícolas do país, a região agora enfrenta um novo tipo de desafio: manter o crescimento sem aprofundar a perda de vegetação nativa.

Segundo dados do Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado (SAD Cerrado), em 2024 o Matopiba concentrou 82% do desmatamento do bioma. A boa notícia é que, no ano passado, o desmatamento caiu no Cerrado: a taxa oficial para o período foi de 7.235,27 km², o que equivale a uma queda de 11,49% em relação ao período de agosto de 2023 a julho de 2024.

Para o secretário extraordinário de Controle do Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente (MMA), André Lima, esse debate ultrapassa o contexto regional e se insere em uma crise mais ampla. Ele lembra que os efeitos das mudanças climáticas já são perceptíveis e impactam diretamente o campo.

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“O setor já tá sentindo esses efeitos com o retardamento de chuvas, com a mudança do regime de chuvas, com as mudanças de temperatura, com ondas de calor.”

A percepção já se traduz em impactos concretos na produção. “Há uma série de fatores que já estão afetando a produção e, não raras vezes, gerando prejuízos econômicos”, diz.

No caso do Cerrado, o cenário é ainda mais sensível. Ao mesmo tempo em que o Brasil avança na redução do desmatamento na Amazônia, afirma Lima, esse movimento não se repete com a mesma intensidade no Cerrado.

A explicação, segundo ele, está no perfil da supressão vegetal. “Algo em torno de 90% do desmatamento na Amazônia é ilegal.” Isso permite uma ação mais direta do Estado.

“Com instrumentos de controle e fiscalização, a gente consegue reduzir.” No Cerrado, porém, a dinâmica é diferente. “Há estados como Tocantins e Bahia em que dois terços — cerca de 60% a 65% do desmatamento — são autorizados.”

Ainda assim, o problema não se restringe ao que é legal. “Entre 35% e 50% do desmatamento ainda é ilegal no Matopiba”, ressalta. Esse cenário cria um desafio adicional.

“Você tem um índice alto de ilegalidade e tem um índice alto de legalidade que você não controla com fiscalização”, diz o secretário do MMA.

Mudança de rumo

Diante disso, Lima defende uma mudança de abordagem. “É preciso usar da criatividade financeira, econômica para desenvolver mecanismos de incentivos para a manutenção do Cerrado”, diz ele.

Segundo o secretário, há uma relação direta entre desmatamento e clima. “Eu poderia te mostrar um quadro de como mudou significativamente o regime hídrico no Brasil. E mudou para pior.” Ele detalha o cenário: “Nós estamos há 20 anos no Brasil em um modo de seca. Ou é seca moderada, ou é seca grave, ou é seca gravíssima, depende do ano.” E reforça a conexão com o avanço da supressão vegetal: “Isso tem a ver com a progressão do desmatamento.”

Apesar do cenário preocupante, Lima sustenta que é possível ampliar a produção sem expandir a área desmatada. A chave, segundo ele, está na eficiência. “Se a gente fizer as contas na ponta do lápis, uma propriedade hoje que produz em sequeiro em 80% do imóvel tem uma rentabilidade menor do que uma que produz em 50% com irrigação.”

Ele detalha a lógica: “A produtividade e a rentabilidade, em um regime irrigado, são muito maiores, demandando menos área.” Isso permite preservar mais vegetação do Cerrado. “É uma questão de eficiência econômica, ambiental e produtiva.”

Segundo ele, isso também torna a produção mais estável. “Esse produtor, por exemplo, corre menos risco de perda porque, se ele tem irrigação, tem mais segurança.”

André Lima também defende que a política de acesso à água leve em conta a conservação. “A prioridade de acesso à água para a produção agropecuária deveria ser para aqueles que conservam mais Cerrado.”

Lima explica a relação: “Com mais Cerrado, mais se absorve água, mais se devolve água para a atmosfera e mais se equilibra o regime hidrológico.”

Mudança de mentalidade

O secretário avalia que o setor produtivo começa a passar por uma transformação. “Eu acho que tem havido, aos poucos, uma mudança de mentalidade e uma disposição cada vez maior, uma abertura crescente dos produtores rurais.”

Segundo ele, isso é mais visível entre os produtores integrados ao mercado internacional. “Aqueles que têm a produção vinculada à exportação estão entendendo que produzir mais, conservando mais, valoriza mais a produção.”

Essa mudança, no entanto, não é uniforme. “Eu acho que isso é uma transição geracional”, afirma. Ele observa diferenças entre gerações. “A nova geração já vem com uma mentalidade mais arejada, mais disposta a equilibrar essa equação.”

Para Marco Bomfim, chefe-geral da Embrapa Cocais (MA), trata-se de um movimento cada vez mais amplo e consolidado. “Quando o mercado começa a cobrar a valorização da sustentabilidade na produção, isso impacta diretamente o negócio”, afirma.

Para Bomfim, essa transformação atinge toda a cadeia agroindustrial e chega ao produtor. “Cada vez mais os produtores estão buscando se integrar nessa nova lógica de produção, sob pena de ficar fora do mercado.”

Para Lima, o debate entre preservação ambiental e produção agrícola ainda carrega marcas de conflitos passados. “A gente ainda vive as fraturas e feridas de um debate que foi muito difícil em 2012, que foi o debate do Código Florestal.”

Segundo ele, esse histórico ainda influencia o diálogo atual entre diferentes setores, principalmente entre a geração de produtores rurais que vivenciou esse processo de perto.

Desmatamento zero

Ao falar de desmatamento zero, o secretário faz questão de esclarecer o conceito. “Em hipótese nenhuma vamos proibir o desmatamento de quem tem o direito de desmatar.” Segundo ele, a estratégia não envolve mudança na legislação. “Não vamos proibir isso por decreto nem sequer mudar a lei.”

Segundo ele, a estratégia de desmatamento zero tem três pilares. “Um é o combate com tolerância zero ao desmatamento ilegal.” Ele destaca o impacto dessa medida: “Se a gente conseguir reduzir significativamente o desmatamento ilegal nos próximos anos, a gente entra em uma trajetória de queda importante.”

O segundo pilar trata do desmatamento legal. “Esse a gente trabalha com incentivos econômicos. Quem se comprometer a não desmatar pode acessar um recurso muito mais barato para fazer o seu investimento.” Ele cita instrumentos já em uso: “O governo federal lançou quatro editais chamados EcoInvest.” Segundo ele, esses mecanismos buscam atrair capital para atividades sustentáveis.

O terceiro pilar envolve a compensação ambiental. “A ideia é investir em reflorestamento, em restauração florestal.” Segundo ele, esse processo também pode ser produtivo. “A gente tem, por exemplo, empresas investindo fortemente em restauração florestal produtiva”, diz, citando como exemplo a Suzano, maior produtora de celulose do mundo.

O objetivo é equilibrar perdas e ganhos. “A área total que você está reflorestando tem que compensar o total de área que você está desmatando.”

A meta é clara: “A partir de 2030, nosso objetivo é que a área total de vegetação do Cerrado se estabilize e, se possível, passe a crescer.”

Sistemas mais sustentáveis

A busca por sistemas produtivos mais sustentáveis e eficientes tem impulsionado novas práticas no campo. Para Marco Bomfim, os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) já têm presença relevante e tendem a ganhar espaço na região. “É um sistema que imita o sistema natural, onde você tem árvores, tem a parte de produção agrícola, tudo integrado”, afirma.

Para ele, esse modelo cria um ambiente mais equilibrado, no qual as árvores contribuem para a fertilidade do solo e oferecem sombra ao gado. A expansão, explica, também está ligada à existência de mercados para a madeira.

“Aqui no Maranhão, por exemplo, na região de Imperatriz, tem uma grande operação da Suzano, com 250 mil hectares de floresta plantada”, diz, destacando que áreas no entorno já adotam a integração para abastecer essa cadeia produtiva.



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