Sucesso com mais de 90 mil espectadores encerra temporada amanhã –
Qual é a melhor fase da vida? Esta pergunta do dramaturgo norte-americano Edward Albee (1928-2016) está no cerne do espetáculo Três Mulheres Altas, em cartaz no Teatro SESC Casa do Comércio, neste final de semana, 25 e 26, em duas sessões, 17h e 20h.
Com as atrizes Ana Rosa, Helena Ranaldi e Fernanda Nobre no elenco, a peça tem direção do gaúcho Fernando Philbert e é vencedora do Pulitzer – honraria norte-americana que premia, anualmente, trabalhos considerados de excelência no jornalismo e nas artes nos Estados Unidos.
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Clássico da dramaturgia contemporânea, Três Mulheres Altas é uma comédia mordaz que reflete sobre a passagem do tempo através de um acerto de contas entre três personagens que representam diferentes fases – juventude, maturidade e velhice – da mesma mulher.
São personagens sem nome que o autor batizou apenas com as letras A, B e C. A mais velha (Ana Rosa) já passou dos 90, está doente e embaralha memórias e acontecimentos enquanto repassa sua vida para a personagem B (Helena Ranaldi), uma espécie de cuidadora ou dama de companhia.
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Fases da vida
Escrita nos anos 1990, a montagem tem forte base autobiográfica, já que foi inspirada na mãe adotiva de Albee, com quem ele teve uma relação extremamente conflituosa. “A intenção foi retratar sua mãe”, diz Ana Rosa.
“Minha personagem é a mãe do autor. Uma mulher de 92 anos que teve uma infância e juventude difíceis e agora, na velhice, está passando por momentos de ausências mentais”, detalha Ana.
Para a atriz, a idade traz um pouco mais de sabedoria em todos os sentidos, mas todas as fases têm seu encanto.
“Tudo depende de vários fatores. Não saberia dizer qual a melhor”, nota.
| Foto: Divulgação
Já para Helena Ranaldi, 59, que vive B, a personagem intermediária, a melhor fase da vida é agora. “Eu acho que a gente tem que ter consciência de que o agora é o que a gente tem. Se a gente fica revivendo, ou vivendo de lembranças, ou projetando para frente, muitas vezes a gente se perde nesses sentimentos e deixa de viver o agora. E o agora é o mais importante”.
Ela conta ainda que sua personagem, por ser uma cinquentona, é alguém que já tem alguma experiência de vida. “Já tem um passado onde ela aprendeu muitas coisas, vivenciou outras tantas e tem um olhar para o futuro de uma grande vivência que vem pela frente”.
E garante que o público vai se divertir, se emocionar, se reconhecer “porque a peça fala sobre o tempo, e o tempo é comum a todos nós. Independente da idade, você está vivenciando seu tempo, e essa peça fala sobre essas três gerações diferentes e como essa passagem do tempo reflete na vida de cada uma. As pessoas saem do teatro com uma grande reflexão sobre a própria vida”, acredita Ranaldi.
Três Mulheres Altas traz muito mais um aprendizado sobre a finitude do que sobre o envelhecimento em si, segundo a atriz. “Eu acho que eu, Helena, sempre tive uma certa dificuldade em lidar com questões como a finitude, a morte, e essa peça fala sobre esse assunto de uma forma muito simples e natural, porque não há nada mais certo na vida do que a morte”.
Maturidade e descarte
E ainda tem a personagem C, a mais jovem, uma advogada responsável por administrar os bens e recursos da idosa, já que a mesma não consegue mais lidar com questões financeiras e burocráticas, interpretada por Fernanda Nobre.
“Meu personagem tem um embate com as gerações mais velhas por causa da diferença cultural de idade e da diferença de perspectiva de vida. Envelhecer na nossa sociedade é muito difícil, ainda mais para nós, mulheres, que somos descartadas, invisibilizadas e perdemos o nosso valor social”, rebate Fernanda.
“Mas eu tenho aprendido que a vida só melhora, eu gosto mais de mim, tanto fisicamente quanto emocionalmente, e viver é a melhor coisa que existe”, complementa a atriz.
Por fim, Fernanda ressalta que a ideia do espetáculo é a de que as pessoas reflitam sobre suas próprias escolhas. “Sobre várias fases de sua vida, sobre o que são hoje, o que esperam do futuro e o que estão construindo ser. É uma peça de reflexão sobre a maturidade”.
Mas, na verdade, a grande protagonista do espetáculo é mesmo a passagem do tempo. Em tom de comédia – apesar do autor estar lidando com temas sérios e profundos –, estão ali questões sobre o olhar da juventude para a velhice, uma suposta sabedoria da pessoa de 50 anos e, sobretudo, como lidamos com o envelhecimento.
De forma sarcástica e perversa, Albee acaba revelando uma classe média alta estadunidense hipócrita.
Ao falar sobre status, sucesso e sexo, mostra a visão preconceituosa da sociedade, atravessada, sobretudo, por um filtro machista.
Guiness Book
E quem for ao espetáculo vai ter a oportunidade de ver em cena uma recordista de novelas no Brasil. A veterana Ana Rosa, 83, está no Guinness Book de 1997 e 1998. Na época, a atriz tinha 43 produções no currículo, e agora já superou os 60 folhetins.
Ela estará em Por Você, próxima novela das sete da Rede Globo, com estreia prevista para o segundo semestre deste ano, e estava afastada da teledramaturgia desde 2016, quando atuou em A Lei do Amor.
“As novelas, desde seus primórdios, passaram por várias transformações. Tivemos e temos ainda excelentes autores. São uma forma de levar não só entretenimento, mas também alguma forma de conhecimento para os telespectadores”, teoriza, com propriedade, Ana Rosa.
Esta versão de Três Mulheres Altas, que tem tradução de Gustavo Pinheiro, já passou por 28 cidades brasileiras e teve mais de 90 mil espectadores. Em seu quarto ano consecutivo em cartaz, a montagem recebeu indicações a prêmios teatrais, como Cesgranrio, Bibi Ferreira e Cenym.
Três Mulheres Altas / Hoje e amanhã, 17h e 20h / Teatro SESC Casa do Comércio / Plateia – R$ 220 (inteira) e R$ 110 (meia), Mezanino – R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia) / Vendas: Sympla / Classificação Indicativa: 12 anos